houvera um tempo em que ela vivia do ontem. sua patética existência era regada à lembranças mórbidas de uma melancolia ruim. o único sorriso sincero vinha quando tinha que abrir os lábios para o líquido quente descer.
pobrezinha.
tuas lágrimas, salgadas, temperavam o humor. as atividades mórbidas há muito ficaram para trás e então ela gostava de viver.
viver do ontem.
quando animava-se, rá, essa era a melhor parte. os dedos apertavam freneticamente os botões do rádio do carro até chegar naquela estação que tocava música ruim.
as músicas a levavam de volta a 2004.
vivia de passado.
no guarda-roupa, um violão empoeirado descansava teus últimos dias. ao lado dele, lembranças.
teus dias favoritos eram os frios, pois assim havia uma desculpa pra simplesmente não precisar existir. os livros empoleirados ao redor da cama, a janela que há muito não era aberta, o telefone fora do gancho, as músicas repetidas e um sentimento.
cansaço.
em torno dele, lágrimas.

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